O Brasil como um Mercado Emergente na Produção e Exportação de Software

Atualmente, a produção de software no Brasil é, altamente, deficitária se olhada sob a luz da balança comercial. Em 2007 o país importou cerca de US$ 3 bilhões e as exportações chegaram perto dos US$ 250 milhões. Para cada dólar exportado o país importa 10. Em 2005 a situação era pior ainda, neste ano o Brasil importou cerca de US$ 7.41 bilhões e exportou somente US$ 178 milhões. Para efeitos comparativos, países emergentes como a Índia e a Irlanda exportam cerca de 8 vezes o que importam. Analisando os números questiona-se: Como alterar este cenário dentro de nosso país?

Para responder tal questão vamos destacar algumas potencialidades brasileiras dentro das seguintes áreas: ativos de Tecnologia da Informação (investimentos) e engenharia de software:

  • Os grandes investidores em TI continuam sendo os Estados Unidos (US$ 439 bilhões/ano) seguido pelo Japão (US$ 108 bilhões/ano) o Reino Unido e Alemanha completam esta lista.
  • Em 2006 o mundo investiu cerca de US$ 1.16 trilhões em TI. No Brasil os investimentos chegaram à casa de US$ 16.2 bilhões superando Índia, Koreia, Rússia, México e Argentina, países estes classificados como emergentes no cenário econômico mundial.
  • O Brasil é o 12º. no mundo com o maior investimento em TI, o único país emergente na nossa frente é a China.
  • O mercado consumidor brasileiro é extremamente promissor, por exemplo: temos a 5ª. população do mundo, somos os 6º. em números de celulares.
  • Alguns ativos de TI, também, merecem destaque neste contexto:
    • A urna eletrônica: Em 2006, 126 milhões eleitores votaram utilizando tal dispositivo (100% dos eleitores). Cerca de 430.000 urnas foram utilizadas. Cerca de 90% dos votos, para a presidência da república, foram processados em 90 minutos.
    • O Brasil é primeiro país no mundo a informatizar a declaração de imposto de renda. Todos nós sabemos das potencialidades dos processos informatizados da receita federal.
    • O Brasil é um dos líderes em projetos de eGoverment, um exemplo disso é o pregão eletrônico, chamado de comprasNet. Com a implantação deste sistema o governo agilizou em 70% o tempo de compra de um produto licitado. Outros 2.000 serviços governamentais são oferecidos via internet.
  • O poderio de mão de obra brasileiro também merece ser destacado:
    • O país possui a segunda maior base de desenvolvedores Java do mundo (100.000 desenvolvedores).
    • Nos últimos 3 JavaOne (maior evento Java do mundo) um projeto brasileiro venceu a Duke’s Choice Award, categoria esta que seleciona a aplicação mais inovadora desenvolvida em Java.
  • Outro ativo de TI que merece destaque é o sistema bancário brasileiro. Em algumas áreas como: sistema de pagamentos; Internet Banking; cartões e ATMs o Brasil se caracteriza como líder mundial.

O contexto, brasileiro, acima apresentado, não é explorado dentro do mercado mundial de TI, esta afirmação pode ser comprovada com os seguintes dados:

  • Os Estados Unidos agregam 80% das operações de offShore (instalação de uma filial, geralmente, em um país emergente cuja mão de obra é mais barata, para fins de tercerização de bens e serviços) no mundo.
  • Na União Européia, o Reino Unido, a Alemanha e a França congregam grande parte dos 20% restantes.
  • No contexto asiático, o destaque vai para o Japão.

A América Latina exportou 1.8% das necessidades americanas dentro da área de TI.  O Brasil “lidera” esse quadro com 1%. Somente a Índia atendeu cerca 84% das necessidades americanas na área de software. É importante ressaltar que a Índia não possui um cenário tão promissor quanto o descrito anteriormente.

Os fatos apresentados nos remetem a sugerir uma segunda questão: Como o Brasil pode utilizar suas potencialidades para se tornar um dos maiores exportadores de serviços de TI no mundo?

É necessário enfatizar todo o cenário tecnológico favorável apresentado anteriormente, mostrar ao mundo, principalmente, aos americanos o que temos de melhor: O SISTEMA BANCÁRIO/FINANCEIRO (SB/F). É importante salientar que grande parte das operações de offShore americana foca, estritamente, o mercado financeiro. Veja alguns fatores que colocaram o Brasil na liderança neste quesito.

A evolução do  SB/F ocorreu nas décadas de 1970 e 1980, nesta época o Brasil estava fechado para as importações de bens e serviços caracterizados como TI. Este fato, aliado a instabilidade financeira, a constante mudança de moeda e a um sistema tributário, totalmente, caótico (que ainda existe) levaram os bancos locais a desenvolverem seus próprios sistemas, gerando assim, um profissional extremamente capacitado na área de negócios financeiros.

Dentro do contexto sistêmico bancário, outras informações merecem ser destacadas: O Brasil é o único país do mundo que possui 5 bancos de capital nacional na liderança no mercado interno. Temos a maior plataforma Mainframe instalada no mundo (nota: as grandes operações bancárias nos Estados Unidos ainda continuam utilizando esta plataforma). O Brasil possui milhares de “Coboleiros” com uma vasta experiência, não só na linguagem, mas também no ambiente financeiro. O número de sofisticação e funcionalidades do Internet Banking brasileiro é a maior do mundo. Proporcionalmente, cerca de 40% da população brasileira utiliza Internet Banking, nenhum país possui este número. O sistema de cartão de crédito brasileiro é sólido e dinâmico (tal sistema já existe a 50 anos). Cerca de 40% da população brasileira utilizou cartão de crédito em 2006 e mais de 1 milhão de estabelecimentos aceitam este tipo de cartão. Temos o maior número de ATMs por contas, só para ter uma idéia 10% dos ATMs instalados no mundo estão no Brasil. A BOVESPA possui o maior patrimônio líquido do mundo. O Sistema de Pagamento Brasileiro compensa em menos que 48 horas qualquer cheque emitido no país, somos campões neste quesito.

Outro ponto de destaque é o fuso-horário brasileiro, estamos a 4 horas da Comunidade Européia e de 1 (uma) a 3 horas dos Estados Unidos.

O Brasil possui: uma cultura “ocidentalizada” semelhante à européia e a americana; uma excelente infra-estrutura de comunicação em fibra-ótica, a ligação de várias das grandes cidades é exemplo disso.

Não temos desastres naturais e terrorismo, uma diversidade étnica domina a genética da população brasileira, o país é pacífico por natureza (não temos disputas com nossos vizinhos na América do Sul).

Enfim, não basta somente apresentar ao mundo todas as potencialidades descritas aqui, é necessário que o governo diminua a carga tributária, não podemos pagar cerca de 40% do que arrecadamos para sustento do próprio governo. As empresas, também devem fazer sua parte, se conscientizar que é somente com a qualidade no processo e no produto que poderão atingir mercados internacionais. As universidades e faculdades de tecnologias, também, devem formar profissionais de qualidade para setor produtivo de software.

Prof. Dr. José Augusto Fabri

Fundação Educacional do Município de Assis

Faculdade de Tecnologia de Ourinhos 

fabri@femanet.com.br 

 

Fontes de consulta:

Brasilian Association of Information Technology and Communication Companies – www.brasscom.com.br

Ministério de Ciência e Tecnologia, Secretária de Política em Informática – www.mct.gov.br/sepin

Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior http://desenvolvimento.gov.br/portalmdic/sitio/interna/interna.php?area=5&menu=1161

14 Responses to “O Brasil como um Mercado Emergente na Produção e Exportação de Software”

  1. Luiz C. Begosso Says:

    Olá Guto, muito interessante sua reflexão sobre o estado-da-arte na dinâmica da produção de software no Brasil. Mesmo com os avanços apresentados muito ainda é preciso ser feito por este país. Nós, da universidade, temos um papel importante a cumprir neste cenário.

  2. Ótimo texto Guto! Mais informações legais ai (Citando Cezar Taurion – http://www.ibm.com/developerworks/blogs/page/ctaurion?entry=qual_o_tamanho_do_mercado):

    Qual o tamanho do mercado global de TI?

    Acabei de ler o relatório “Global IT 2008 Market Outlook”, publicado pelo Forrester Research. Ele estima que o business global de TI (venda de bens e serviços) será, em 2008, de 1,7 trilhões de dólares!

    O Brasil está posicionado em sétimo lugar (sim, somos um dos quinze “largest IT markets” para o Forrester), com uma estimativa de comercialização de 46 bilhões de dólares. O primeiro lugar (cerca de 1/3 deste mercado todo) são dos EUA. Olhando os Bric, estamos atrás da China (138 bilhões), e ainda na frente da Índia (38 bilhões). O outro país Bric, a Rússia, não está posicionada entre os quinze top markets. Olhando a relação destes quinze países, vemos que estamos na frente da Espanha e Itália e temos mais do dobro da estimativa feita para o México. Nada mau…”

  3. Uma alternativa para aumentar a produção e exportação de software está em uma consistente política de desenvolvimento. Quem tomará a iniciativa? Os governos federais, estaduais e municipais? A Universidade? Ou o setor privado?

  4. Steve Bowden Says:

    Interesting article. I’m sorry to respond in English, my Portuguese is weak. I was trying to establish a subsidiary in Brazil for the purposes you describe. Our conclusion was that the salaries and protection system (leis trabalhistas) are too constraining to make a move to Brazil worthwhile. It’s not a matter of competence, but a matter of policy. The Brazilian government should promote this industry by reducing the overhead for foreign corporations. A smaller, but still problem was the weak English spoken by most of the programmers.

  5. Texto muito bom… Fiquei impressionado como somos tão evoluídos em
    alguns quesitos, temos o melhor ambiente e estamos tão distante de
    outros países nesse quesito de exportação de software…

    Uma coisa que comento com meus alunos e que você destaca nesse texto:
    (…)
    “As empresas, também devem fazer sua parte, se conscientizar que é
    somente com a qualidade no processo e no produto que poderão atingir
    mercados internacionais. As universidades e faculdades de tecnologias,
    também, devem formar profissionais de qualidade para setor produtivo
    de software.”

    Somente com qualidade (utilizando modelos de melhoria de processo de
    software, técnicas de gerenciamento e modelagem) alcançaremos isso.
    Mas temos diversos fatores que emperram esse desenvolvimento. Cito
    alguns: falta de investimento, mão-de-obra barata e não qualificada,
    falta de uma regulamentação, etc…

    Será que estamos tão longe de obtermos isso?

    Vamos procurar cumprir o nosso papel como profissionais e professores universitários para a melhora desse cenário.

    Abraços,
    Alércio Bressano
    Gerente de Projetos
    Professor Universitário (www.unit.br)
    Aracaju – SE

  6. Ótimo texto Guto! Mostra-nos o quanto ainda temos que amadurecer no quesito “autopropaganda” pois só o que a maioria de nos sabemos fazer é nos rebaixarmos como incapazes sem saber o potencial que temos e o quanto de dinheiro estamos perdendo.

  7. Fernando 2º TPD Says:

    Muito bom texto!!!!!

  8. Fernando 2º TPD Says:

    Vc poderia montar uma palestra sobre este assunto seria muito Bom “Entrão”??????

  9. Parabéns caro amigo pela apresentação clara de suas idéias sobre nosso potencial. Devemos continuar batalhando pela excelência no desenvolvimento de soluções, com alto padrão de qualidade. [Adriano Romagnoli]

  10. Para modificar um cenário econômico de uma determinada área, acredito que não seja simples, sob minha visão, faz-se necessária a definição de metas, a centralização esforços (buscando mudanças) e a atenção nos ventos favoráveis.
    A definição de metas implica na análise das potencialidades no nosso país (o que é bem ressaltado no texto); a centralização de esforços implica na capacitação dos profissionais (em diversas ciências, não só informática) de forma responsável e que realmente supram as necessidades das nossas potencialidades; e a atenção nos ventos favoráveis não é sentar e esperar as coisas acontecerem, implica na realização projetos e comercialização no momento oportuno, é também, implica no cuidado de acrescentar em meio a projetos sob demanda projetos audaciosos (futurístico/criativos), projetos que prevejam as necessidades do mercado. Deve-se investir em pessoas mais gabaritadas de outras áreas (outras ciências) para participar do processo de desenvolvimento de software, os resultados que estes podem ocasionar pode ser surpreendente, o desenvolvedor geralmente não é “expert” em negócios que ele pretende sistematizar, aos que possuem bom conhecimento é necessária a humildade e atenção, para que no momento certo ouvir pessoas de fora para ficar um passo a frente.
    Iniciativas como as adotadas pelo Prof. Dr. José Augusto Fabri trazem resultado, pois incentiva a analise de como sair do buraco e produzir softwares melhores e que alcance rotas mercantis. Não se devem restringir informações e discussões somente em salas de aula, congressos e fóruns, as necessidades são diárias e deve ser globalizada. Precisamos de análises e de número para fazer as coisas acontecerem.
    Deve-se acabar com a centralização do conhecimento e da informação, pois para se obter melhores resultados econômicos é necessário que o Brasil reflita a imagem de um país produtor de software, onde há um mercado com ótimos produtos e com vasta opção de escolha (preço e tecnologia), e não um país com alguns nichos produtivos. Quando abordo a “vasta opção de escolha” não me refiro a todos os campos de negócios existentes, mas sim dentro de um só negócio demonstramos opções com tecnologias distintas e preços distintos.

  11. […] Os números delineados por Rego Gil não diferem, substancialmente, da situação mercadológica brasileira dentro do setor produtivo de software apresentada por este blog quando lançado (confira os números de fevereiro de 2008 por meio deste link). […]

  12. Segue um texto que acabei de escrever atualizando este assunto: http://laedevolta.com.br/blog/2009/04/13/a-producao-de-software-no-brasil-e-o-porque-da-india-ser-melhor/

    Espero que contribua. Grande abraço,
    Ricardo

  13. Yes! Finally someone writes about software.

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