Quem pode mudar o mercado brasileiro no setor produtivo de software?

Após a redação do texto “O Brasil como um mercado emergente na produção de software” fui questionado e por alguns colaboradores sobre alguns temas:

  • A importância da universidade no contexto apresentado.
  • Quem tomará a iniciativa para colocar o país dentro do seleto grupo dos exportadores de software: Governo ou empresas?
  • Leis trabalhistas e a alta taxa de impostos.
  • Dificuldade dos programadores brasileiros com a língua inglesa.

 Ao analisar as questões, pude verificar que todos concordaram com o último parágrafo do texto: “Enfim, não basta somente apresentar ao mundo todas as potencialidades descritas aqui, é necessário que o governo diminua a carga tributária, não podemos pagar cerca de 40% do que arrecadamos para sustento do próprio governo. As empresas, também devem fazer sua parte, se conscientizar que é somente com a qualidade no processo e no produto que poderão atingir mercados internacionais. As universidades e faculdades de tecnologias, também, devem formar profissionais de qualidade para setor produtivo de software”.

Com base neste contexto, afirmo que o aumento da exportação do produto de software no Brasil depende de cada um de nós, isto é: somente por meio de um MOVIMENTO DE CLASSE que alguma coisa pode ser alterada. Vou citar alguns exemplos:

  • Inconfidência Mineira (1785): Revolta dos proprietários rurais, intelectuais, clérigos e militares (CLASSES) contra a cobrança de impostos do governo português (a Derrama).
  • Proclamação da república: União de um grupo de militares (CLASSE) que culminou na proclamação da república em 1889.
  • Movimento das Diretas Já (1984): Movimento civil (CLASSES) liderado por Fernando H. Cardoso, Luis I. Lula da Silva, Ulysses Guimarães, entre outros. Objetivo: Eleições com o voto direto.
  • Impeachment do presidente Fernando Collor de Melo: União dos estudantes e da população (CLASSES) para caçar o presidente da república acusado de corrupção. Quem não se lembra da histórica votação ABERTA do congresso nacional.
  • Na esfera internacional o destaque vai para a Revolução Francesa (1789 a 1799). União de diversas esferas da sociedade (CLASSE) contra os 2 primeiros poderes da França (Clero e Monarquia).

Uma ação em conjunto dos profissionais da área, estudantes, professores universitários pode colocar este país no lugar que ele merece. É importante que tenhamos consciência sobre a necessidade da qualidade no processo de produção de software, não podemos conviver e aceitar os seguintes números (fonte: pesquisa sobre qualidade e produtividade em software publicada pela Secretaria de Política de Informática. Total de empresas pesquisadas: cerca de 450 – www.mct.gov.br/sepin):

  • Somente 69,1% das empresas brasileiras desenvolvem o controle de versão de seus produtos;
  • A gerência dos requisitos é feita 24,4%;
  • Estimativa de custo é desenvolvida em 55% e a estimativa de esforço em 45,7%;
  • Já a estimativa de tamanho é feita em 29%. Questiono: Como as empresas estimam esforço e custo sem estimar o tamanho do software? Será que as empresas sabem o que estão respondendo?
  • A Gerência de risco é feita em 11,8% das empresas;
  • Gestão de mudança, 10,4%;
  • Planejamento formal dos testes, 37,8%;
  • Utilização de depurador, 39%.

 Os números apresentados são de 2002, será a situação em 2008 é diferente? Eu afirmo que não. Basta responder a seguinte pergunta: Quem de nós utiliza todas as práticas citadas no processo de desenvolvimento de software (só enumerei algumas, se colocar todas as práticas necessárias a situação fica pior ainda)? Será que temos um processo definido em nossa empresa?

A revolução tem que partir de nós. Temos que direcionar a melhoria da produtividade de software neste país, independente da política governamental. Vou citar algumas ações que podem ser tomadas de imediato:

  • Aluno e Profissional da área de mercado: Tomar consciência que existe algo a mais que JAVA, .NET, Linux e Windows. Conhecemos bem estas tecnologias e claro que elas são importantes, porém a engenharia de software vai muito mais longe. Quem de nós conhece pontos por função? O conhecimento na língua inglesa é fundamental. Empresas relatam que profissionais brasileiros não sabem ler textos em inglês, e muito menos falar.
  • Empresa: É necessário possuir certificação de qualidade em processo de produção de software. Não tem outra escapatória! Siga o exemplo desta relação de empresas (http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/13885.html).
  • Professores: É necessário aplicar as práticas relacionadas à engenharia de software a partir dos primeiros anos. Não conheço nenhuma universidade que trabalhe a questão do teste formal nas disciplinas introdutórias da área de programação. Por favor, apresente um checklist básico de teste aos alunos, este é um artefato do processo de produção. Uma padronização de código também poderia ser utilizada. Dê textos em inglês para os alunos. Cobre a leitura destes textos.
  • Universidades: Abolir, principalmente, o mercantilismo e se preocupar estritamente com as questões de qualidade do ensino.

Enfim, não estou isentando o governo de qualquer ação de incentivo à produção e exportação de software no Brasil. Afirmo que uma reforma tributária deve ser feita rapidamente. Abrandar as leis trabalhistas também é necessário. Porém, acredito que uma mudança efetiva começa pela nossa CLASSE (profissionais do mercado, alunos, professores, universidade e empresas). O Brasil e mundo são exemplos disso.

Prof. Dr. José Augusto Fabri

Fundação Educacional do Município de Assis

Faculdade de Tecnologia de Ourinhos.

fabri@femanet.com.br

9 Responses to “Quem pode mudar o mercado brasileiro no setor produtivo de software?”

  1. Luiz Ricardo Begosso Says:

    Guto,
    seu raciocínio está perfeito. Não se pode colocar toda a culpa na política governamental. É claro que é fundamental que o governo reduza substancialmente esta absurda carga tributária a que o setor produtivo brasileiro é submetido. Mas também é necessário que as CLASSES cumpram seu papel. A correta aplicação dos conceitos e o crescimento da maturidade em engenharia de software vem de encontro às necessidades da indústria de software para atingir o mercado internacional.

  2. José Carlos Gomes Says:

    Parabéns. Gostei do texto.
    Concordo com vc quando diz: ” que o aumento da exportação do produto de software no Brasil depende de cada um de nós, isto é: somente por meio de um MOVIMENTO DE CLASSE que alguma coisa pode ser alterada”.
    Em referência aos exemplos de movimento de classes que citou, deveria acrescentar que sempre houve uma organização social dando apoio a eles. Cito alguns casos de iniciativa da Maçonaria, por exemplo:
    1. Independência do Brasil.
    2. Inconfidência Mineira.
    3. Proclamação da República.
    4. Revolução Francesa.
    e outros, onde “Justiça, Igualdade e Fraternidade” era o objetivo principal.

  3. Esta iniciativa é de grande valor para que nós da área de informática tenhamos um minuto de atenção para o que anda ocorrendo no nosso “Mundo”. Infelizmente essa é a realidade de nosso país, os profissionais não cobram melhorias e sempre fazendo tudo para ontem, não param para fazer o que manda a engenharia de software. Boas práticas não são bem aceitas principalmente entre os profissionais. Acredito que uma revolução deve acontecer para mudar esses paradgmas de que qualidade é perca de tempo.

    Parabéns Prof. Dr. José Augusto Fabri.

  4. Clovis Torres Fernandes Says:

    Prezado Prof. Dr. José Augusto Fabri, brilhante diagnostico da situacao e excelente proposta para sairmos dela. Conte com meu apoio!

    Laboratorio de Aprendizagem e Interacao – LAI
    Divisao de Ciencia da Computacao – IEC
    ITA

  5. Celso L. L. Rodrigues Says:

    NÂO se trata de “classes”, mas de categorias. Categorias profissionais, principalmente, no caso. Proprietários rurais pertencem a uma classe, enquanto os intelectuais, clérigos e militares, estas três categorias contam com membros de mais de uma classe. Classe advém de uma identidade econômica: quem tem o domínio econômico pertence a uma classe; quem não tem, pertence a outra. Entre os produtores de software há membros da classe dos donos de escritórios de programação e da classe dos empregados, por exemplo. E não há como membros de classes diferentes terem interesses comuns. Por aí não se terá convergência. A menos que os donos consigam convencer os empregados que o que é melhor para eles, donos, é bom para os empregados, o que só acontece se os empregados forem muito incompetentes, para si mesmos e até para seu patrão. Já os empregados não convencerão jamais seus patrões de que seus interesses são os melhores. Isto é impossível. Cada um tem seus interesses e ponto final. O que é preciso é que todos possam perseguir honesta, equilibrada e lealmente seus interesses. Aí é que está o segredo num ambiente capitalista.

    “Movimento civil” pode ter a ver com classes , mas dizer que estudantes (???!!!) e a “população” (TODA?) são classes é de uma impropriedade amazônica.

    E, finalmente, não há NEM A MAIS REMOTA PROBABILIDADE de se conseguir identificar uma classe, sequer um conluio positivo num saco de gatos irreconciliáveis por definição contendo profissionais do mercado, alunos, professores, universidade e empresas.

    Para confirmar que os produtores de software têm pouco lucro com seus investimentos pode-se usar argumentos como a alta carga tributária (alta para quem?) e outros. Mas querer que haja um movimento DE CLASSE contra isto, é subverter a natureza das coisas. TODAS AS CLASSES querem baixar os impostos. Onde está o adversário? Só falta, de repente, descobrir-se que o governo é a classe exploradora, então, e não que ele é constituído de membros da classe exploradora, espalhada em todos os meandros da vida nacional. Se fosse assim, a solução seria abolir o governo. Mas como vai ser instrumentada, então, a ação de quem tem o domínio econômico? É deles, o governo! É preciso, antes de tudo, reconhecer que quem mais “reclama” dos impostos é quem mais se beneficia e na verdade controla o estado de coisas, e não estou falando do governo, mas de quem o controla, que está “fora” dele.

    Assim, seu raciocínio não tem como ser perfeito, e perde em credibilidade.

    Eu sei que para se falar sobre essas coisas é preciso cuidado. Sim, não é qualquer um que constrói bom software. Sim, é necessário desenvolver condignamente a indústria de software no Brasil, em qualidade, produtividade e rentabilidade. No entanto, não é qualquer um que fala propriamente sobre coisas tão complexas como movimentos sociais ou pode propor movimentos “de classe”, muito menos entrelaçados com questões econômicas e de desenvolvimento tecnológico.

    Todos nos arriscamos.

    Desculpe a franqueza, mas comecei a ler com interesse e me desiludi com o que achei que deve ser bem repensado.

    Saudações,
    Celso L.L. Rodrigues
    Engenharia de Computação
    Universidade Federal do Rio Grande – RS

    Obs.: cheguei a seu “site” pelo “link” que postou na lista da SBC.

  6. Jedson Zendron Figueiredo Says:

    Prof. Dr. José Augusto Fabri.
    Parabéns pela iniciativa!
    Foi de extrema importância o relato sobre o mercado brasileiro no sertor produtivo de software, devido as informações, opiniões e sujestões adquiridas por você.
    1. O infoque da dificuldade dos programadores brasileiros com a língua inglesa, afirmando que é fundamental, desdo primeiro ano, estimular alunos a lerem textos em inglês.

    2. Resaltou que profissionais precisam se conscientisarem que as tecnologias como JAVA, .NET, Linux e Windows são de extrema importância, porém existem algo mais!

    3. Com essa realizade, perguntou: “Quem de nós conhece pontos por função?”, foi muito importânte essa pergunta, devido há uma proliferação de conferências de software a respeito de medidas nos E.U.A., com uma grande ênfase em pontos de função e medidas funcionais de tamanho, no que relata ao exemplo de sala de aula, de que Pontos de Função (e outras medidas funcionais de tamanho) sozinhos não fazem um programa de medida acontecer! Como medida de tamanho de software (semelhante a metros quadrados na construção civil). Da mesma forma que somente os metros quadrados são insuficientes a um construtor para administrar a construção, apenas Pontos de Função são insuficientes para um desenvolvedor de software administrar um projeto.

    Resposta: Somos nós!!!

    Atenciosamente, Obrigado

    []’s

  7. Guilherme Orlandini Says:

    Muito bom Guto.Gostei muito do artigo.

    Concordo que a “barreira” da língua é um grande fator que impede o sucesso do Brasil no mercado de Software, porém ,no meu modo de ver, temos mão-de-obra qualificada.Em uma palestra da IBM que assisti 1 ano atrás, o palestrante comentou que o brasileiro tem muita habilidade no desenvolvimento de software.Comentou ainda sobre a Índia, dizendo que o código-fonte da maioria dos indianos é “horrível”.O que será então que os faz um dos maiores exportadores de software no mundo?

    Acho que é importante ressaltarmos também, a questão PIRATARIA ( principalmente quando falamos de usuário pessoa física ).
    Começo então com uma pergunta: Quantos de nós COMPRAMOS software hoje em dia? Acho que começa por aí….Se não compramos, POR QUÊ não compramos? É caro? Software brasileiro não têm QUALIDADE ?
    Qual seria a motivação de um empresário do setor de informática à desenvolver software para ser vendido em larga escala, uma vez que “uma semana” após o lançamento de um produto, este mesmo produto estará sendo vendido em uma banca de camelô por R$ 1,99.

    Outra coisa: São feitas muitas comparações entre a produção de software e a produção de bens como automóveis, construções de prédios, etc..etc..Ou seja, a produção de software como um produto manufaturado.Quando estas comparações são feitas, é importante se lembrar de alguns ites:
    1 – O modelo de um carro, varia a cada ano, ou seja, além de toda uma base histórica da produção de determinado automóvel, ainda se têm um prazo razoável para trabalhar em um novo modelo.
    2 – Os “requisitos” de um automóvel não mudam tão rápido quanto o de um software.
    3 – A atividade de desenvolver software ainda é muito recente, se comparada por exemplo à arquitetura ( o antigo Egito é um bom exemplo ).
    4 – Todas as pessoas que compram um automóvel ou uma casa, conseguem imaginar o trabalho que “alguém” teve para projetar e construir aquilo, o que não ocorre com o software.Usuário de programas imaginam que é só implementar meia dúzia de código e arrastar alguns botões para o software estar pronto.Acredito que a conscientização das pessoas de que desenvolver um software é uma atividade extremamente complexa seria importante.

    Com certeza, enquanto nós, não nos mobilizar-mos como uma CLASSE, esse quadro dificilmente mudará.

    []´s

  8. Olá Professor e demais,
    em janeiro saiu um artigo interessante na Dobb’s sobre o desenvolvimento de software na América Latina (com enfase ao Brasil).
    É interessante a leitura: http://www.ddj.com/architect/205600791

    Em relação a pergunta (titulo do texto), no meu ponto de vista, quem pode mudar o mercado é o próprio mercado. Iniciando pela exigência maior de competências e menor de conhecimentos técnicas.

    Veja os próprios anúncios de vaga.. “Precisa-se de Analista formado. Conhecimentos em tecnologia Y, X e Z” é assim que o mercado contrato.. e é assim que o estudante se aliena em uma linguagem que amanhã pode nem mais existir.

    abs.

  9. Ótimo texto, mas eu acredito a união de nossa classe não vai mudar o mercado, mesmo por que, como uma classe que seguer é regulamentada pode se unir? Existem N picaretas ai fazendo nosso trabalho. O primeiro passo para a tal união é a regulamentação. Eu sinceramente fico muito irritado ao “competir” no mercado com pessoas que sequer fizeram um simples curso técnico, quem dirá uma faculdade! :-(

    O que acho que pode fazer mudar nosso nível de qualidade são as próprias empresas, e acredito ainda que isto é um fluxo natural, visto que cada vez mais o mundo é plano, então é exigido qualidade, ou a empresa tem qualidade, ou vai estar fora do mercado. É visível isso em várias licitações do governo.

    Ai eu me remeto a qualidade de ensino, que muitas vezes não reflete as necessidades das empresas, seja pelo engessamento do MEC ou seja pela má vontade de alguns elementos dentro de algumas faculdades que tambem engessam a mudança de grade ou ainda pelos próprios alunos (temos aqui N fatores que podem causar uma verdadeira guerra).

    Para mim, a faculdade é e sempre será o alicerce, que deve prover às empresas mão de obra. O profissional DEVE sempre buscar seu aprimoramento. Não adianta esperar que o aluno recém formado saiba pontos de função, qualidade, etc, profundamente. Esse aluno precisa é de um emprego imediato, e para conseguir esse emprego ele precisa sim é conhecer JAVA, .NET, Oracle e compania.

    Nenhum aluno vai sair da faculdade para ser um gerente de projeto ou algo assim, e esse tipo de pessoa que DEVE conhecer mais profundamente qualidade e cia. Ai sim eu digo meu ponto, isso, o aluno aprende no dia a dia ou em cursos de especialização. O mercado precisa de mão de obra especialista em sua necessidade, e hoje e sempre, no capitalismo selvagem, quem dita as regras é o mercado.

    Então, “Quem pode mudar o mercado brasileiro no setor produtivo de software?”: N fatores podem mudar, mas para mim o principal é termos mais mão de obra realmente qualificada nas tecnologias que o mercado demanda.

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