Nossas Fábricas de Softwares são Melhores que as Fábricas Japonesas de Década de 1970?

 

Freqüentemente encontro com ex-alunos, amigos que trabalham no setor produtivo de software, colegas de outras instituições, e pergunto: Por onde andas? Qual a empresa que você trabalha? O que esta empresa faz? Em várias ocasiões recebo as seguintes respostas:  

  • Professor estou trabalhando em uma fábrica de software (resposta delineada por ex-alunos e amigos).
  • Na minha instituição de ensino estamos desenvolvendo um piloto para a composição de uma fábrica de software (resposta delineada por colegas de outras instituições).

Costumo ver também várias empresas utilizarem o termo fábrica de software na composição de seu nome fantasia ou de seu processo de produção. Com base nestas informações, questiono: Será que sabemos o que realmente é uma fábrica de software? Será que o processo fabril de produção de software evoluiu durante os últimos 40 anos ou estamos usando as mesmas práticas apresentadas ao mundo, pelos japoneses, na década de 1970? O que temos de novo nesta área?

 

A meu ver, uma fábrica de software deve ser caracterizada como uma organização estruturada, voltada para a produção do produto software, totalmente alicerçada na engenharia e com organização do trabalho, modularização de componentes e escalabilidade produtiva caracterizada. Deve possuir, ainda: um ambiente de gerenciamento de projetos; um processo padronizado, definido e institucionalizado; políticas que garantam a qualidade do produto; um conjunto de ferramentas para mecanizar gerenciamento de projeto, processo e construção; técnicas para medir e estimar custo, prazo e tamanho de uma equipe para um determinado projeto; ambiente de teste definido e padronizado; foco em um segmento de mercado e; política de desenvolvimento de recursos humanos.

 

A primeira pessoa a utilizar o termo fábrica de software foi Bemer em 1969. Além dele, na década de 1970, várias empresas Japonesas instituíram um processo fabril em seu contexto produtivo, entre elas é possível citar: a Hitachi: fábrica instalada em 1969; a Toshiba: fábrica instalada em 1977; a NEC: fábrica instalada na década de 1970; a Fujitsu: fábrica instalada em 1979.

 

Todas as empresas citadas no parágrafo anterior conseguiram altos índices de produtividade e qualidade dentro do setor produtivo de software, neste texto, como exemplo, cito os índices obtidos pela Toshiba (veja a Tabela 1).

 

Ao analisar a Tabela 1, é possível constatar alguns pontos importantes:

  • Na Toshiba, em 1972, o total de linhas de código entregues em Assembly por programador era de 1230. Após a instalação da fábrica, em 1978, este número cresceu 37%, culminando em 154% em 1985. 
  •  A empresa em questão, em 1985, atingiu um percentual de 48% no reuso de código. A cada 100 linhas de código entregues aos clientes, 48 linhas eram caracterizadas como reuso de código. Será que este pessoal conhecia a idéia a idéia de componentização? Será que o código componentizado era de qualidade?

Para efeitos comparativos vou apresentar alguns dados quantitativos, brasileiros, mapeados por Costa (2003) e um estudo de caso feito em 6 fábricas brasileiras (cinco delas possuem certificação CMMI, a sexta possui ISO 9001). Maiores detalhes sobre este estudo pode ser verificado no artigo em anexo: Um Estudo Comparativo entre as Fábricas de Softwares Brasileiras e Japonesas.

 

Costa (2003) apresenta uma pesquisa envolvendo 31 empresas, as mais significativas, que atuam no mercado brasileiro utilizando o modelo de Fábrica de Software. Destas, apenas 41% aplicam um ciclo completo de desenvolvimento de software para seus produtos; 45% aplicam metodologia própria; 16% utilizam ferramentas de controle de projetos; 14% possuem certificação CMMI ou ISO; 13% utilizam ferramentas CASES e 10% aplicam métricas de qualidade.

 

As 6 empresas citadas no artigo (Um Estudo Comparativo entre as Fábricas de Softwares Brasileiras e Japonesas) implementam um ciclo completo de desenvolvimento, porém encaram como fábrica, somente a produção de código. O conceito de reuso de código ou componentização é praticada formalmente somente um uma delas, as demais praticam tal conceito de maneira informal. Todas as empresas, inclusive as japonesas, utilizam no mínimo uma ferramenta para gestão de projeto e controle da produtividade. As fábricas brasileiras também possuem um controle rigoroso em relação à produtividade, porém nenhuma delas controla a produtividade como a Toshiba. Por fim, as empresas japonesas não utilizavam qualquer tipo de norma de qualidade, como por exemplo: o CMMI, porém as métricas sobre a qualidade do processo e do produto são verificadas em todas as fábricas nipônicas.

 

Ao analisar o contexto apresentado é possível verificar que o processo fabril das empresas brasileiras pesquisadas não sofreu grandes mudanças quando comparados aos processos japoneses da década de 1970 e 1980, principalmente, sob a luz do controle de produção. Este fato mostra que a teoria processual para software com características fabris vem sendo aplicada, sistematicamente, a cerca de 40 anos. Os modelos de qualidade de software e de gerenciamento de projetos contribuíram para a disseminação de alguns aspectos de qualidade (nas empresas brasileiras), já praticados pelas empresas japonesas. Podemos dizer que houve, sim, uma modernização das ferramentas de gestão, promovendo uma maior integração de dados de controle de produção, da forma de programar (com a institucionalização da orientação a objetos – lembrando que a OO foi criada na década de 70), com o adventos das IDEs e com a forma da distribuição das informações. Porém, a essência dos aspectos de controle de produção, e de gestão de projetos continua teorizando as bases conceituais definidas pelos japoneses. Será que a gestão de um processo de produção de software evoluiu em algum lugar?

 

Saudações.

 

Prof. José Augusto Fabri.

Faculdade de Tecnologia de Ourinhos.

Fundação Educacional do Município de Assis.

 

Fonte de Consulta:

 

Bemer, R. W.; The Economics of Program Production; In: Information Processing –  vol.II, no 68; Amsterdan: North-Holland Publ.Co, 1969

 

Costa, Ivanir; Contribuição para o aumento da qualidade e produtividade de uma fábrica de software através da padronização do processo de recebimento de serviços de construção de softwares – 174 pag.; Tese (Doutorado) Apresentada ao Departamento de Engenharia de Produção da Universidade de São Paulo; São Paulo: PoliUSP, 2003

 

Cusumano. M. A. Japan’s Softwares Factories. New York: Oxford University Press. 1991.

Fabri, J. A. et. al. Um Estudo Comparativo entre as Fábricas de Softwares Brasileiras e Japonesas. Simpósio Internacional de Melhoria de Processo de Software. São Paulo. 2007.

2 Responses to “Nossas Fábricas de Softwares são Melhores que as Fábricas Japonesas de Década de 1970?”

  1. elianafeo Says:

    De um modo geral, nas décadas de 80 e 90, as empresas brasileiras procuraram copiar o modelo japonês de gestão, entretanto a maioria não obteve resultados satisfatórios, o que gerou a questão: Por que os programas de qualidade falham?
    Segundo Tolovi Jr (1994), o modelo japonês de gestão da qualidade não obtém sucesso quando: 1-não há envolvimento pleno da alta direção; 2- a direção não entende que os programas de qualidade tratam do comportamento das pessoas e, portanto, levam tempo; 3-o nível gerencial não compreende a filosofia e conseqüências de um programa de qualidade com a profundidade devida; 4-não se percebe que por ser um projeto de longo prazo exige um bom planejamento; 4-há baixo investimento em treinamento; 5-o sistema de remuneração é inconsistente; 6-falta apoio técnico na implantação de metodologias.
    Com as fábricas de software ocorre o mesmo?

  2. Hector Rodriguez Says:

    Do momento, em que o produto-SW é reducido a suas partes esenciais (linhas de código); o comportamento dele é o mesmo que os “commoties”(produtos a granel, comercializados normalmente como materia prima) na industria eletro-eletrónica. Porque podería ser diferente?. Os modelos japoneses tem elementos psico-sociais herdados do modelo feudal, que ainda operam nessa sociedade. Isto devería nos fazer repensar se o modelo é adecuado para nossos países. De fato, em america latina custa gerar novos modelos produtivos, adecuados a nossa realidade, dada a falta de “engenheiros” e ainda a migracao destes ao primeiro mundo. O único modelo, que acreditamos estar estabilizado, é o dos anos 70 e 80, caso contrario cairiamos quase que diretamente aos modelos pos-2da guerra. Particularmente, acredito que na america latina ainda nao foram totalmente explorados ao maximo de suas possibilidades os modelos de divisao do trabalho. Tomando isto em consideracao, é quase natural ter continuos retornos, ainda com os custosos esforcos de modernizacao.

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