Empresas de software planejam e controlam produção (PCP)?

Em uma aula sobre gestão de projetos de software, fui abordado com a seguinte questão:

Professor, as empresas de software controlam a sua produtividade? Se sim, dê-nos um exemplo prático.

Ao analisar o mercado produtivo de software é possível afirmar que a maioria das empresas não possui um processo de produção de software definido e institucionalizado. Antes de controlar a sua produtividade é necessário estimar o tamanho e o esforço do software a ser desenvolvido, existem algumas técnicas que me possibilitam isto (cito: FPA e COCOMO). Ressalto que a idéia de estimativa está, intimamente, ligada a questão do planejamento. Com base nestes fatos podemos dizer que o aferimento da produtividade passa pelo desenvolvimento de um bom PCP.

Formalmente, um PCP pode ser encarado como um conjunto de funções relacionadas que objetivam delinear o processo produtivo e coordená-lo com todos os setores administrativos da empresa (ZACARELLI (1979)). Para MARTINS (2005) o objetivo do PCP é controlar o processo produtivo a partir de uma estrutura de dados bem definida. Por fim, RUSSOMANO (2000) considera o PCP um fator decisivo na estratégia das empresas produtoras de software para enfrentar as crescentes exigências qualitativas do setor.

Para controlar a produtividade na área de software as empresas devem implementar o seu PCP (nota: conheço algumas empresas com maturidade qualitativa que implementam o PCP). Ao analisar as definições apresentadas por ZACARELLI (1979), MARTINS (2005) e RUSSOMANO (2000) é possível encontrar algumas palavras chaves ligadas ao tema discutido:

·          Coordenação de processos;

·          Estratégia para enfrentar as exigências qualitativas do setor;

·          Controle de processo produtivo e estrutura de dados.

Para desmistificar a idéia do PCP nas empresas de software vou partir da terceira palavra chave: “controle de processo produtivo e estrutura de dados”. A partir deste fato vou questioná-los (lembre-se que estou trocando experiências com alunos em uma sala de aula):

Qual é o principal produto de uma empresa de produção de Software? Resposta: O software.

O software pode ser divido em módulos? Resposta: Sim.

Os módulos podem ser divididos em pequenas partes ou componentes? Resposta: Sim.

Quem implementa os componentes? Resposta: Os programadores.

Quem projeta as funcionalidades? Resposta: Os projetistas.

As funcionalidades são materializadas em um documento de projeto? Resposta: Sim.

É possível atribuir um conjunto de funcionalidades a serem implementadas a um programador? Resposta: Sim.

É possível controlar o tempo que este programador levou para implementar as funcionalidades? Resposta: Sim, basta que alguém afira isto.

É possível verificar se as funcionalidades implementadas apresentam erros? Resposta: Sim, basta testá-las formalmente.

Se erros forem detectados, é possível mapear a quantidade de erros para cada funcionalidade? Resposta: Sim. Basta que alguém afira isto.

É possível armazenar tudo isto em uma estrutura de dados bem definida? Resposta: Sim, basta implementar um banco de dados com este objetivo.  

É possível extrair relatórios gerenciais e, de posse destes relatórios, planejar outros projetos de software? Resposta: Sim, pois com estes dados é possível verificar a produtividade de cada programador, quais são os erros mais freqüentes. Se a produção do componente está dentro de um prazo pré-estabelecido.

Perfeito, vocês chegaram no ponto ótimo da discussão (…). De repente fui interrompido por um aluno:

Professor, os analistas de sistemas, projetistas e engenheiros de software não são contratados para organizar o sistema de informações nos bancos, fábricas, lojas atacadistas e varejistas. Por que eles não organizam o sistema de informação de sua própria empresa?

Para responder sua pergunta vou referenciar duas frases que ouvi em uma entrevista de Ricardo Viana Vargas (www.macrosolution.com.br): “O executivo brasileiro não tem tempo para planejar mas tem dinheiro para consertar”. “Brasileiro é fazedor e não planejador”.

É PROFESSOR, O PLANEJAMENTO E CONTROLE DE PRODUÇÃO ESTÁ DEBAIXO DE NOSSO NARIZ. BASTA NÓS EXERGARMOS ISTO.

Você tem toda razão, o PCP é a organização estruturada dos dados em um contexto sistêmico. Veja só como é possível realizar isto (pcp).

 

José Augusto Fabri

Faculdade de Tecnologia de Ourinhos

Fundação Educacional do Município de Assis

 

Referências Bibliográficas

MARTINS, P. G.; LAUGENI, F. P. Administração da produção. São Paulo: Saraiva, 2005.

RUSSOMANO, V.H. Planejamento e Controle da Produção. São Paulo: Pioneira, 2000.

SLACK, N. et al. Administração da produção. São Paulo: Atlas, 1997.

ZACARELLI, S. B. Programação e Controle da Produção. São Paulo: Pioneira,1979.

 

4 Responses to “Empresas de software planejam e controlam produção (PCP)?”

  1. Hector Rodriguez Says:

    As simplificacoes feitas, aos efeitos de contar com um conjunto finito de dados, sao muito interesantes.

    Porem, o ponto no cual o PCP comeca a ser realmente util, é aquele onde o nivel de refinamento de dados é maior.

    O proceso de producao de software, por diversos motivos, entre eles a falta de competencias adecuadas, é muito parecido ao da innovacao tecnológica. Acredito, que deveriamos procurar elementos de avaliacao do PCP, nas empresas de innovacao. Isto debido ao componente intelectual e criativo, em diversos niveis do proceso de producao de software.

    Embora, existan importantes aproximacoes, as empresas de software ainda apostam no valor intrinseco da innovacao, como fator real de extracao da plus-valia. Daí a dificuldade de definicao do tamaño e o esforco necesario na producao de software.

  2. ThiagoCortez Says:

    Olá Prof. Guto,
    parabáns pelo artigo. Muito bom.

    Na prática sempre visualizei a necessidade de reusar códigos criando componentes, porém, não tinha me atentado ainda para a existência de toda uma base conceitual por traz da criação destes componentes. Interessante…

    Abraços…

  3. José Augusto Fabri Says:

    <<Comentário enviado diretamente em meu e-mail pela Profa. Dra. Judith Pavón:
    Que interessante que você tenha tocado nesse assunto. Faz pouco tempo terminei um trabalho de consultoria em um banco onde com uma equipe de profissionais definimos o processo de capacidade produtiva da área de TI, a experiência foi muito boa. No início tivemos uma grande dificuldade para encontrar bibliografia a respeito, portanto, tivemos praticamente que definir tudo de zero. O resultado final foi muito bom, inclusive agora que o processo foi definido, o mesmo será automatizado para em uma terceira etapa implantar este processo. Agora, existem outras empresas que já estão pedindo o mesmo serviço “definição de um processo de capacidade produtiva” para suas áreas de desenvolvimento de software. Acredito, que aos poucos essa demanda vai aumentar consideravelmente.

  4. Eliana Feo Says:

    Interessante essa transposição da Gestão da Produção da Manufatura para uma fábrica de software. Pode-se pensar também na relação entre a Gestão de Operação (termo usado para prestadora de serviços) e a prestação de serviços de TI. Em ambas é possível aproveitar um século de evolução de Teorias e Práticas, desde a concepção mecanicista/taylorista à humanista/toyotista.

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