Quem é você professor?

Após publicar o texto “treze itens que relacionam fábrica de software, near/outsourcing e home office” recebi o seguinte comentário de um amigo:

Eu estou do lado da empresa que vai em busca de parcerias com faculdades, então, ai vai uma questão para você ou então uma idéia para um próximo post: IBM, Microsoft, e tantas outras empresas, têm projetos de parcerias com faculdades, nos quais disponibilizam material, cursos, descontos em certificação, etc, etc… Mas o que fazer quando os professores não demonstram a mínima vontade de conhecer esse tipo de iniciativa? Eles são os maiores responsáveis por mostrar para os alunos que tais parcerias existem, mas geralmente, não o fazem. Como “cutucar” eles para que tenham mais empenho?

Antes de responder as questões, vou apresentar as características de um professor dentro do contexto universitário.

Professor pesquisador

Acredito que o professor pesquisador tem como alicerce fundamental o seu trabalho em sala de aula. Esse tipo de professor encara a sala de aula como um valioso laboratório. Utiliza mecanismos e recursos inovadores para ministrar os conteúdos relacionados à sua disciplina. Além de publicar artigos focados em seu domínio de conhecimento, o professor pesquisador apresenta a comunidade acadêmica experiências focadas na área de ensino. Ressalta-se que este tipo de profissional se envolve constantemente em discussões que norteiam os parâmetros curriculares dos cursos superiores, desenvolvem avaliações de cursos junto aos conselhos estaduais e ao Ministério de Educação e Cultura.

Pesquisador professor

O pesquisador professor está muito mais focado no seu objeto ou instrumento de pesquisa. Sua maior preocupação é produzir descobertas científicas, extremamente, relevantes. Geralmente, este docente ministra algumas aulas nos cursos de graduação e pós-graduação. Conheço vários colegas que possuem este perfil. Sua presença no contexto universitário é de extrema relevância para o desenvolvimento científico de um país.

Professor Profissional TI

O professor profissional de TI possui como principal atividade o trabalho em sala de aula. Fora do contexto universitário este professor atua nas empresas que provêem soluções ligadas a TI (mercado). Por exemplo: Um professor de engenharia de software ministra x aulas/semana e possui y horas/semana para desenvolver consultorias, treinamentos em empresas produtoras de software. O professor profissional de TI, assim como os outros, também é de fundamental importância para o meio universitário, pois ele consegue estabelecer uma relação direta entre a sala de aula e a empresa. Sua produção científica sempre prima por soluções que atenda ao meio empresarial.

Profissional de TI professor

Este ator trabalha nas empresas provedoras de soluções ligadas a TI. Trabalha durante o dia focado em questões produtivas e ministra aulas nos cursos noturnos. Geralmente a sua produção científica é quase nula, porém sua importância também deve ser considerada para o contexto universitário. Uma característica salutar está presente neste tipo de profissional: ele provê oportunidade de estágio e de emprego para vários de seus alunos e ex-alunos (cá entre nós, isto é muito legal).

Professor Administrador

Nesta categoria se encaixam os coordenadores de curso, diretores, reitores, etc. Acredito que são esses os professores que realmente “carregam o piano”. Geralmente, são (ou devem ser) pessoas com um perfil que prima pela administração participativa dentro do meio universitário. O administrador deve agregar em torno de um objetivo maior, destaco aqui a qualidade do ensino, todos os outros tipos professores e, principalmente, os ALUNOS (o ator mais importante dentro do contexto discutido neste post).

Além de assumir um (ou mais) dos papeis citados, todos os professores participam das atividades pedagógicas que tangem um curso superior. É possível incluir neste item as reuniões de planejamento, as comissões para o desenvolvimento de eventos extracurriculares e a participação nos mais diversos colegiados. Tudo isto demanda muito trabalho. Não se esqueça também que todos os professores preparam as suas aulas.

Partindo das classificações delineadas vou tentar responder as questões apresentadas pelo meu interlocutor.

Acredito que a “cutucada” deve ser dada nas faculdades e nas empresas. É interessante que as primeiras possuam todas as categorias de professores delineadas em seus cursos. Não é possível construir uma IES com qualidade somente com um tipo de professor. Agora vem uma pergunta para as empresas: Por que elas não financiam, REALMENTE, os grandes projetos de pesquisa neste país? Por que não injetar recursos (RECURSOS VERDADEIROS) juntos aos professores pesquisadores e aos pesquisadores professores? Será que estes professores se interessariam pelas ferramentas citadas? Lembre-se que o financiamento para pesquisa e desenvolvimento advindo da iniciativa privada não é tão substancial assim. Acredito que isto pode e deve ser melhorado.

Vejo que algumas das frustações do interlocutor estão justamente ligadas aos pontos citados no parágrafo anterior. Lembre-se que nem todos irão apresentar um aparato ferramental aos alunos, alguns são puramente teóricos, não podemos desmerecer a importância destes, por trás de uma grande ferramenta, existe muita teoria. Tente classificar o tipo de professor que você tem contato em suas alianças acadêmicas. Reflita também sobre os investimentos de sua empresa em pesquisa e desenvolvimento.

Concluindo, saliento que existem inúmeras atividades ligadas a carreira acadêmica que deveriam ser inseridas na classificação dos professores traçada por este blog. Também não podemos isentar o professor de toda a culpa por não apresentar as alianças e os cursos, citados por ti, aos alunos. Seria extremamente interessante que pudéssemos nos adaptar aos perfis traçados ao longo do ano letivo, porém isto é quase impossível. Infelizmente, para os órgãos de fomento a pesquisa, a capacidade de um professor universitário é medida, em grande parte, pela quantidade de artigos que ele possui classificados no Qualis e não pela quantidade de alunos que ele coloca no mercado ou ainda pelo seu conhecimento em alguma ferramenta (também não sei estes itens deveriam entrar na contagem). A grande questão é: COMO MUDAR TUDO ISTO? Fica a aqui um convite à reflexão: Sua IES possui um quadro eclético de docentes? Sua IES possui um financiamento para pesquisa e desenvolvimento advindo da iniciativa privada? Professor, você consegue se estabelecer em mais de uma categoria? Quem é você professor?

Prof. José Augusto Fabri

5 Responses to “Quem é você professor?”

  1. Oi Guto. Ótimo artigo. Vamos aos questionamentos agora (que com certeza vão virar posts hein):
    1- Vejo que as empresas investem em P&D em maior (e muiiito maior) número fora do Brasil. A IBM mesmo tem grandes centros de excelencia responsáveis por boa parte do que conhecemos hoje em dia em se tratando de tecnologia, instalados nos Estados Unidos. O mesmo acontece com Microsoft, Google, etc… Será que no Brasil, falta incentivo as empresas aos investimentos?
    2- Talvez quanto a aproximação de empresas e faculdades, as empresas não deveriam deixar de focar no ensino superior e focar em ensino técnico? Visto que existe uma grande demanda de cursos técnicos que gerem mão de obra qualificada para o mercado de trabalho e um curso técnico deve dar mais enfoque em ferramental e metodologia “de mercado”, então o foco das empresas estaria errado.
    3- Aproveitando o item 2 e gerando um terceiro questionamento meio fora do foco da conversa, mas muito interessante do ponto de vista das empresas… ainda sobre cursos técnicos, os tipos de professores seriam os mesmos que você delineou e sua capacidade seria medida da mesma forma? Pois se for, será complicado inserir “conteúdo de mercado” nos mesmo.
    4- Sou um Profissional de TI professor. :-)

    Guto, parabéns pelo Blog. Está em um nivel muito bom e realmente adiciona conteúdo as pessoas.

  2. Maria Alice Siqueira Mendes e Silva Says:

    Ao refletir sobre a pergunta desencadeadora deste artigo, ou seja, sobre o que fazer com o “desinteresse” dos professores em participar de parcerias entre iniciativa privada e faculdades no desenvolvimento de projetos, gostaria de abordar um aspecto que, ao meu ver, contribui para essa situação: o contexto do mundo do trabalho desta categoria. Quais são suas reais condições de trabalho? E, ainda, como está organizado seu trabalho?
    Acredito, também, que este contexto seja um dos fatores responsável pela emergência de um outro perfil encontrado entre professores universitários: o daquele excelente profissional de determinada área que faz “bico” na Educação.
    Sabe-se que cerca de 70% do ensino superior ocorre em faculdades particulares e, predominantemente, no período noturno. Sabe-se, também, que não há no país uma pedagogia voltada ao ensino superior, o que faz com que, em diversas áreas do conhecimento, principalmente as técnicas, o quadro de professores seja composto por diletantes em educação. É importante ressaltar o significado da palavra diletante, de acordo com o Dicionário Aurélio: aquele que se ocupa de um assunto ou exerce uma arte por gosto, e não por ofício e obrigação. Se, por um lado, existem, então, esses professores, no mínimo, bem intencionados, por outro, há aqueles que fazem um “bico” para reforçarem seu orçamento e que, por isso, não estabelecem nenhum compromisso com a instituição onde atuam. Podemos falar que esses últimos não ensinam direito? Claro que não, porque geralmente são profissionais reconhecidos no mercado, porém, não têm nenhum preparo pedagógico e nenhuma condição emocional de se comprometerem com “mais um” trabalho, dividido, muitas vezes, em várias faculdades.
    Se considerarmos que na complementação deste cenário temos alunos com sérias carências de conhecimento e totalmente despreparados para receberem um trabalho pedagógico de nível superior, vemos o quão grave se torna a situação, que tem como resultado final uma ineficácia que repercute de modo diferente em cada uma das partes envolvidas: uma frustração e não-envolvimento por parte do professor, um descontentamento geral do aluno que, por sua vez, gera desmotivação para um estudo sério e eficiente, e, por fim, um fracasso da Educação como um todo. Daí, uma pergunta que me surgiu desde o momento que li o artigo do Guto: será possível pensar em parcerias nessas condições? E, depois dessa, uma outra: qual seria a solução para isso?
    Penso que uma das possibilidades seria fazer uma intervenção com uma visão mais educacional do que administrativa, visão essa que fosse capaz de eliminar esse fenômeno generalizado que é termos “educadores improvisados”. Isso significa: primeiro, um enfrentamento da situação que passaria por uma melhor formação dos docentes de curso superior, de maneira tal que esses se tornassem capazes de formular projetos pedagógicos que tivessem uma concepção educacional e intervencionista, e não meramente organizacional, tecnicista ou profissionalizante e, segundo, rever a maneira como está organizado o trabalho do professor assim como suas reais condições de trabalho.
    Acredito que melhorar a formação, a organização e as condições de trabalho do professor universitário tornaria possível uma verdadeira “escolha” pela Educação como “local” de investimento de trabalho, no sentido mais importante desta palavra, ou seja, como investimento de energias física, intelectual e, principalmente, afetiva.
    Enfim, as demandas contidas na performance de um bom professor são muitas: exigem dele, além de um comprometimento ético, o conhecimento de princípios científicos, uma prática efetiva de testagem desses princípios e uma atenção contínua ao estado da arte em que se encontra a sua área de estudo e de trabalho. E, para mim, isso só é possível em dadas condições: não as ideais, visto que essas só existem no plano das idéias, mas aquelas com as características de um terreno fértil. Acredito que, se forem satisfeitas essas exigências, inevitavelmente os projetos e parcerias se estabelecerão.

  3. O que está se planteando é a discussao de : a quem deve servir a Universidade?….. Pois, seu nome ja o diz: UNIVERSIDADE.

    A economía é o grande motor social, mas nao é o unico. Nao devemos desprezar as contribuicoes dos atores de mercado, em termos de requerimentos; mas a universidade procura um conhecimento mais amplo, sendo o mercado somente parte desse CONHECIMENTO amplo.

    Acredito que a universidade deve ser apetecivel, como geradora de conhecimento… más a quem? a atores locais, regionais, internacionais ou globais?

    A Universidade deve apontar a diferentes atores, conforme seu nivel de aportacao ao conhecimento. Nao podemos pretender ser considerados por grandes empresas se estamos ensinando mais do mesmo, ja seja em teorias ou ferramentas.

    As empresas por um principio básico de eficiencia aportam a universidades que consigam conhecimentos que possam dar LUCROS de qualquer natureza, mas LUCROS enfim.

    Cabe as universidades, se querem obter recursos do setor privado, demostrar o lucro que sao capazes de gerar com os conhecimentos obtidos dos laboratorios, salas de aula, equipes de trabalho, professores e alunos.

    Debemos dar aula, para potenciar nossas pesquisas com equipes de alunos melhor qualificados, que permitirao novos conhecimentos, que poderao ser aproveitados pelas empresas, que concordarao em dar recursos para obter esses conhecimentos e finalmente voltarao em melhores salas de aula.

    Dito assim, até parece simples… mas na area de TI vimos debatendo este assunto desde os tempos da reserva informática (anos 70 a 80, para quem nao lembra)…

  4. Bastante interessante a questão central do post. Penso que sou um profissional de TI professor. :)

    Acho que para as instituições (particulares principalmente), tudo virou um negócio, onde dependendo da direção, não há muito interesse em preparar seus professores para atuarem melhor, para serem + competitivos para o mercado. A menos que a instituição tenha ou veja retorno nisso. Aquelas que não são cegas perceberam, com muita luta e esforço de professores, e dinheiro, que o retorno existe sim. É só ver o exemplo do CESAR(Recife) e CIn/UFPE.

    Mas me pergunto o que é ser professor…
    Ser professor para mim é tentar fazer o outro pensar diante de um conhecimento, ao mesmo tempo em que é uma oportunidade para pensar também. Aprender com meus alunos é gratificante e se não for assim não tem motivação e nem dinheiro que atraia. :)

  5. Gutão, meio off-topic.. mas uma sugestão de tópico para você explorar do ponto de vista acadêmico: http://jmmwrite.wordpress.com/2007/12/26/reusabilidade-de-pesquisas-na-graduacao-de-profissionais-de-ti/

    Enjoy.

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