A relação entre empresas, universidades e agências reguladoras de cursos superiores de computação: A visão Latina e a visão Norte-Americana

 

Nos últimos dias recebi várias questões de vários interlocutores deste blog, a maioria delas motivadas pelo post: Quem é você professor?  Selecionei uma delas e tentarei respondê-la com este post. As demais foram colocadas em uma fila e em um momento oportuno procurei traçar as minhas considerações.

A quem deve servir a universidade?

Para iniciar este texto, vou partir de um comentário de um dos interlocutores do blog: “A economia é o grande motor social, mas não é o único”. A universidade deve servir a todos (esta última frase foi derivada de minha interpretação sobre o comentário).

Etimologicamente, a palavra universidade provém do latim “universitate” que significa universalidade, totalidade, conjunto, corpo, companhia, corporação e comunidade. De posse da definição etimológica, questiono: Como deve ser a relação de dois conjuntos aparentemente tão distintos: universidade e empresa? Como as agências reguladoras dos cursos superiores, um terceiro conjunto (MEC e os Conselhos Estaduais de Educação), vê este tipo de relação?

Antes de mergulharmos na relação proposta por este texto, é interessante delinearmos alguns dados sobre o mercado de TI. A Forrester Research anunciou na terça-feira (16/09) que as expectativas de investimento em TI, no mercado norte-americano, para 2009 será 6% superior se comparado a 2008. Associação Internacional de Parceiros Certificados Microsoft estima que existam entre 7 a 10 mil vagas abertas para profissionais que atuem com plataformas Microsoft, seja na área de desenvolvimento ou de infra-estrutura. O Gartner afirma que gastos mundiais com TI devem atingir os US$ 3,4 trilhões em 2008, um aumento de 8% em relação ao ano passado. Com base nos números afirmo: Sobra vaga. Falta pessoal qualificado. Sobra pessoal desqualificado. A conta não fecha.

A grande maioria dos alunos que estão matriculados nos cursos superiores está buscando um “lugar ao sol”. Sem demagogia, na área de TI, todos fazem faculdade para sair com um bom emprego.

Com base nos pressupostos apresentados, afirmo que a relação entre universidade e empresa deve ser alicerçada sobre três pilares fundamentais. 1 – As empresas devem estar dispostas a investir no contexto universitário. 2- “As universidades para obter recursos do setor privado devem demonstrar que lucro podem dar.” (comentário de um dos interlocutores do blog) 3 – As agências reguladoras, responsáveis pelo credenciamento e reconhecimento dos cursos superiores, podem e devem abrir um espaço para que a comunidade, no nosso caso as empresas de TI, seja ouvida, periodicamente.

Acredito que é de comum acordo que os pilares 1 e 2 não são considerados uma prática no contexto nacional (voltaremos a discutir estes aspectos em um próximo post). Neste texto, vou me ater somente ao pilar 3: as agências reguladoras.

Em alguns países latinos, mais precisamente Chile, México, Argentina, Peru e Brasil as agências reguladoras estruturam-se da seguinte forma (as informações apresentadas nos próximos parágrados foram capturadas no debate sobre Sistema Nacionales de Acreditación de Carreras de Computacion e Informática no Congreso Iberoamericano de Educación Superior en Computación realizado nos dias 08 e 09 de setembro de 2008 na cidade Santa-Fé – Argentina. Participantes: Yadrán Eterovic (Chile), Lourdes Sánchez Guerrero (México), Horacio Leone (Argentina), Ernesto Cuadros (Peru) e Mirella Moro (Brasil)):

O Chile apresenta como agência reguladora a Comissão Nacional de Acreditacion cujo objetivo é reconhecer os cursos superiores das mais variadas áreas do conhecimento, inclusive a computação. A validade de tal reconhecimento pode variar de 2 a 7 anos. Salienta-se, que todos os cursos de medicina são obrigados a passar pelo processo de reconhecimento, já para os demais a avaliação é optativa. Grande parte dos cursos chilenos se submete aos processos de avaliação, pois a ausência do reconhecimento implica em penalidades, principalmente, na divisão de recursos advindos dos órgãos de fomento. O processo de reconhecimento de um curso no Chile demanda a realização de uma auto-avaliação e a visita de um comitê de professores, o olhar dos pares. Em um processo de reconhecimento as universidades chilenas desembolsam cerca de USD 10.000,00 a USD 12.000,00.

O México possui políticas de reconhecimento de cursos datadas de 1982. A agência reguladora para a área de computação, denominada Conselho Nacional de Acreditacion  de Informática y Computacion, iniciou suas atividades em 1999. De lá para cá, tal agência unificou os nomes dos cursos de informática a serem oferecidos pelas universidades mexicanas. Em 2004, foram aprovadas as diretrizes curriculares, instrumento este que norteia os currículos de todos os cursos mexicanos da área de computação. Em um processo de reconhecimento, a IES passa por um processo de auto-avaliação e recebe a visita da comissão formada por professores. Nesta visita aspectos relacionados aos planos de ensino; titulação de professores; processo de ensino e aprendizagem e infra-estrutura oferecida são analisados.

A Argentina estabeleceu uma política de reconhecimento de cursos de graduação em 1995. Os itens avaliados pelas agências argentinas são: Carga horária do curso, planos de ensino, infra-estrutura e titulação do corpo docente. Um processo de auto-avaliação também deve ser desenvolvimento pela IES que será reconhecida. Um curso argentino é reconhecido por um período que varia de 3 a 6 anos. A agência Argentina também possui um currículo de referência para seus cursos de computação.

O Peru, atualmente está buscando a titulação dos professores com os cursos de mestrado e doutorado, a maioria deles são desenvolvidos no exterior. A organização de cursos de stricto sensu no país é uma prioridade. Uma organização curricular sobre os cursos de computação também está sendo desenvolvida. Um aspecto me chamou a atenção nas palavras do professor peruano preferidas no referido congresso: “Eu estudei no MIT e não posso trabalhar no Peru com computação, pois eu não cursei a carreira de engenharia de sistemas” (aos que defendem a regulamentação da profissão … ). O Peru, assim como os demais países citados neste post, também possui a idéia de agências reguladoras para os cursos de graduação.

A história brasileira segue a mesma linha dos demais países citados. Em 1996 a LDB flexibilizou os currículos dos cursos de graduação e a avaliação para todos os cursos passou a ser obrigatória. Logo depois o provão foi instituído. Em 1999, foi publicado as diretrizes curriculares nacionais. Em 2004, o SINAES foi instituído, sistema este fundamentado em 3 pilares: 1 – Avaliação dos cursos (currículo e professores). 2 – Avaliação  da IES. 3 – Avaliação dos alunos (o ENADE). A meu ver, com alguns ajustes, o sistema pode ficar bem interessante.

Podemos perceber que os países Latinos possuem basicamente a mesma estrutura em relação ao reconhecimento dos seus cursos superiores. Este blog coloca uma delas em evidência: diferente do modelo Norte-Americano, nenhuma das agências latinas consulta o mercado durante os processos de avaliação.

Nos Estados Unidos, o órgão responsável por credenciar ou reconhecer um curso superior na área de computação é a Accreditation Board for Engineering and Technology. A ABET iniciou suas atividades em 1986 e foca basicamente os cursos ciência da computação, engenharia da computação e engenharia de software, fornecidos tanto pelos colleges quanto pelas universidades. Tais cursos devem atender as necessidades científicas do país (pesquisa de desenvolvimento) e prover um portfólio de conceitos delineados pelo mercado, destaco os conceitos relacionados a processo de produção, tanto para software como para hardware. Aspectos como a organização curricular, corpo docente, infra-estrutura e conteúdos ministrados são avaliados pelos pares. A grande diferença entre o contexto apresentado para a América Latina e o contexto Norte-Americano está na composição estrutural das ABET. Nesta agência a comunidade possui uma participação ativa. As comissões de avaliação in-loco são compostas, geralmente, por dois professores e um profissional de mercado (as informações sobre o modelo Norte-Americano foram capturadas na conferência An industry view of computer science education and accreditation, proferida por Dennis Frailey – Sponsored by Raytheon & ACM Lectureship Program no mesmo congresso).

Será que as contribuições dos profissionais que atuam, diretamente, no mercado seriam bem vindas em nossas avaliações? É uma boa questão para debatermos. Se a reposta for positiva, é necessário balizar como poderia ser a participação deste tipo profissional. Um conselheiro talvez, sem o poder de voto. Será que tal profissional não iria contribuir, principalmente, com os cursos de tecnologia (infelizmente tem muita gente que, ainda, desmerece este tipo de curso)?

Volto a repetir, em hipótese alguma devemos esquecer dos aspectos que permeiam a universalidade da universidade. A formação de pessoas consciente, o desenvolvimento de pesquisa para o desenvolvimento tecnológico sustentável do país e o direcionamento de programas de extensão. Porém é necessário corrermos atrás de recursos, esperá-los somente que os órgãos de fomento nos financiem, infelizmente, neste país, é “dividir a miséria”. Vivo em um país que a educação não é prioridade. Cabe a nós pesquisadores apresentar propostas e projetos de pesquisas que sejam úteis aos olhos da empresa. Devemos mostrar a nossa capacidade científica produtiva para as empresas, elas devem prover uma abertura para que isto aconteça.

Um maior relacionamento entre empresa e universidade passa pela cooperação bilateral. Curso de tecnologia de qualidade. Formação de corpo docente qualificado. Projetos de pesquisas financiados pelas empresas dentro das universidades. Retorno do investimento realizado pelas empresas. Uma participação mais ativa da comunidade empresarial no contexto universitário.

Enfim, particularmente, eu acredito que os cursos superiores de tecnologia têm como objetivo principal servir, prioritariamente, ao grande motor social: a economia. Já os cursos de bacharelado devem possuir uma dualidade intrínseca: 1 – focar a universalidade ligada ao conhecimento científico. 2 – Servir, e muito bem, os aspectos econômicos do país.

José Augusto Fabri

4 Responses to “A relação entre empresas, universidades e agências reguladoras de cursos superiores de computação: A visão Latina e a visão Norte-Americana”

  1. Opa. Certamente a pesquisa acadêmica está passando por uma transformação. Concordo plenamente com o que foi dito sobre o curso de tecnologia. O Cesar Taurion escreveu um post hoje, que fala sobre pesquisa e inovação e um pouco sobre a relação universidade X empresa, acho legal sua leitura: http://www.ibm.com/developerworks/blogs/page/ctaurion?entry=open_innovation_marketplaces

  2. Hector Rodriguez Says:

    Os organismos e as politicas de acreditacao sao muito importantes. Porem, eles sao atravesados por fatores culturais comuns, nos países da América Latina.

    Uma dessas práticas é a continua procura de construcao de legitimidade basados somente em marcos normativos; o qual nao é sustentavel no tempo.

    No campo da tecnología, em particular, nao pode se construir legitimidade sem conhecimentos. Quem sabe, sabe… quem nao sabe… simplesmente nao tem espaco e por “selecao natural” é eliminado.

    De nada servem organismos de acreditacao em TI, que no seu seio nao tenham os elementos mais relevantes do desenvolvimento tecnológico (Innovacao & Transferencia) do pais.

    Penso que deve ser de conhecimento geral que os organismos de acreditacao tem um origem económico. Estes organismos nacem nas corporacoes de profissionais (craft industry europeu), que buscam proteger e regular a quantidade de profissionais que operam no mercado. Sendo assim, tem sua legitimidade construida sobre bases económicas, o aspecto normativo é simplesmente a formalizacao de essa construcao e muito posterior a ela.

    Qual é o fundamento económico direto dos organismos de acreditacao na América Latina? Dado que esse fundamento nao nasce da economía, mas em ideias sobre QUALIDADE NA EDUCACAO – Que é importante, mas nao suficiente – entao, abre-se o espaco para a articulacao política em todos os niveis. Finalmente, um corpo normativo é produto da política (exercicio de poder). Isto aos poucos vai restando legitimidade e cada vez mais, depende de fatores políticos.

    Acredito, que as empresas devem sentir “no bolso” a necesidade de um organismos de acreditacao. Desta maneira elas mesmas aplicarao forca sobre os atores sociais de tomada de decisao, afim de delinear suas necesidades nas áreas de tecnología. De outro modo, elas seguirao utilizando a “GUIA DO ESTUDANTE” da Editora Abril para determinar a origem de seus profissionais na área de TI.

  3. Mirella Moro Says:

    Olá
    Muito bom saber que estiveste no painel e colocaste um post no teu blog!
    Mirella

  4. Heya! I hope you don’t mind but I decided to publish your web site: https://engenhariasoftware.wordpress.com/2008/09/17/a-relacao-entre-empresas-universidades-e-agencias-reguladoras-de-cursos-superiores-de-computacao-a-visao-latina-e-a-visao-norte-americana/ to my online directory website. I used, “A relação entre empresas, universidades e agências reguladoras de cursos superiores de computação: A visão Latina e a visão Norte-Americana Engenharia de Software” as your blog title. I hope this is alright with you. However, if you’d like me to change the title
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