A semana nacional de “destecnologia”

A partir de hoje (20 outubro de 2008) o Brasil promove a semana nacional de ciência e tecnologia.  Em uma conversa informal fui questionado sobre o referido evento. Neste post selecionei 5 questões e tracei minhas opiniões sobre elas.

1 – Existe uma relação direta entre universidade e tecnologia no cenário nacional?

Gostaria de destacar duas palavras nesta questão: universidade e tecnologia. A universidade nos remete ao corpo de conhecimento que rege as relações universais de TODAS as áreas. As áreas, por sua vez, se constituem em domínios específicos de conhecimentos a serem explorados. A tecnologia caracteriza-se como um domínio “pervasivo”, ela está distribuída em diversas áreas do conhecimento. Partindo deste pressuposto, acredito que a maioria das áreas toca, em algum momento, aspectos do domínio tecnológico. Com isso posso afirmar que as universidades constituídas neste país podem ser caracterizadas, de certa forma, como universidades tecnológicas, isto é: todas elas, em algum momento, utilizam tecnologia e ao utilizá-la elas contribuem para a sua evolução. A evolução tecnológica está intimamente ligada a conquista de uma independência que vai muito além da independência política, me refiro a independência científica. TODAS as universidades devem contribuir com a referida conquista.

2 – O Brasil investe em ciência e tecnologia?

O investimento governamental em ciência e tecnologia neste país é ínfimo. Infelizmente, dividimos miséria. O Brasil possui uma carga tributária de primeiro mundo e serviços sociais como educação, saúde e segurança de terceiro mundo. A carga tributária brasileira é de 38% sobre o PIB. Para segurança, agricultura, infra-estrutura e ciência/tecnologia o investimento é 4.75%, ou seja, um pouco mais de 1% para cada uma.  Valor este incluindo o déficit nominal que chega a quase 3%. Para onde vai o restante do dinheiro arrecadado (ou seja, 33.25%)?

3 – Com isso posso afirmar nunca teremos uma independência/soberania tecnológica?

Nunca é muito tempo. Acredito que em um futuro bem distante podemos ser soberanos neste quesito. Claro que isto vai depender do desenvolvimento de algumas políticas. Contemplo aqui:

a) a mobilização da sociedade em torno dos aspectos ligados ao tema em questão, isto inclui as universidades, empresas, governo, professores, alunos, enfim, eu e você.

b) uma reforma tributária consistente e uma reestruturação dos serviços sociais, como a educação, devem ser concebidas e implementadas.

c) capturar recursos externos, as empresas devem ver o país como um grande player no mercado mundial;

d) melhorar a formação da mão de obra brasileira dentro do contexto tecnológico.

e) e por fim, não podemos nos contentar com o título de um mercado irrestrito ligado a mão de obra barata, é necessário que as universidades e empresas pensem em inovações tecnológicas que gerem valor agregado.

4 – O PAC contempla alguns pontos ligados ao desenvolvimento científico tecnológico?

Acredito que plano de aceleração do crescimento é uma boa iniciativa governamental. Diversas áreas ligadas à infra-estrutura são contempladas. Incentivos fiscais também são delineados no plano. Algumas empresas de TI podem se beneficiar com isto, desde que a crise econômica não seja catastrófica. Porém, para existir uma relação direta entre eficiência e eficácia, uma palavra deste plano deve ser alterada. Nosso país necessita de um plano de aceleração do conhecimento. Se existir um investimento maciço em educação, teremos crescimento sustentável, isto sim é importante. Temos que olhar a frente do PAC, sustentabilidade tecnológica não se constrói somente com incentivos fiscais e investimento em infra-estrutura.

5 – Enfim, como você encara a semana nacional de ciência e tecnologia?

A semana de tecnologia é uma boa oportunidade para mobilizar a sociedade em torno do tema. Acredito que não temos condições de debater afundo os aspectos científicos, pois não temos um know-how consolidado para este debate. Em hipótese alguma estou desprezando as evoluções tecnológicas consolidadas, porém acredito que elas ocorrem em um universo muito restrito dada a potencialidade dos pesquisadores brasileiros. Com certeza teríamos condições de nos desenvolver muito mais se nosso país fosse um pouco mais sério (isto incluí investimento). O debate deve ser norteado por ações e políticas que possibilitem que o Brasil se torne soberano tecnologicamente.

One Response to “A semana nacional de “destecnologia””

  1. Eliana Feo Says:

    Completando os dados sobre o Gasto do governo em porcentagem do PIB, dos 38% arrecadado em impostos.
    Aposentadorias e pensões 13,00
    Educação 4,50
    Saúde 7,50
    Pagamento de juros da dívida pública 7,00
    Superávit primário (amortização da dívida) 4,25
    Investimentos e manutenção dos outros setores (infra-estrutura, segurança, agricultura, ciência e tecnologia etc.) 1,75
    Déficit 3,00

    O gasto com Aposentadoria e pensões é o dobro de outros países.
    Saúde e educação são semelhantes à média mundial.
    O gasto com juros é alto, porque os juros são altos para controle da Inflação.
    Então, se vc pudesse decidir, o que faria?
    Onde cortaria para aumentar o Investimento?

    E como são as coisas lá no país do Bush, responsável por 20% PIB mundial?
    Saúde – 15% do PIB (mas tem 55 milhões de cidadãos sem acesso a uma atenção integral mínima)
    Gastos com defesa (origem dos investimentos em tecnologia) – 3,2% do PIB

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