Vai faltar muito mais que doutor

 

Venho acompanhando uma grande discussão na lista da Sociedade Brasileira de Computação. Tudo começou com um e-mail dizendo que iria faltar doutor para preencher uma série de concursos públicos nas universidades federais e estaduais de norte a sul do país. Eu, particularmente, acredito que irá faltar muito mais do que doutores, a educação brasileira está preste a entrar em colapso em um futuro próximo. Como diz a crônica de Julio Clebsch, vivemos em uma geração de vidiotas.

Moro em um país em que os alunos terminam a quarta série sem saber ler e escrever (e não são poucos). Em meu estado graças à fatídica progressão continuada, existem alunos que terminam o ensino fundamental e não conhecem conceitos básicos da matemática. Olha que estou vivendo em um dos estados mais abastardos da nação.  Vocês já experimentaram ler uma redação de um aluno concluinte do ensino fundamental? Vejo o desespero de minha esposa, professora de língua portuguesa, ao se deparar com os péssimos textos produzidos. Esse público já chegou às universidades particulares há um bom tempo, e agora é a vez das públicas localizadas nos pequenos centros. Que as universidades federais se preparem, pois as contas serão de 50%…

Pergunte aos filhos de vocês: Quem quer ser professor de matemática ou língua portuguesa? Estenda a pergunta para os formandos do ensino médio: o negócio é feio. Vai faltar professor!!! Sim!!! Professor para ensinar os nossos netos e bisnetos. Acredito que discussão deva sair da esfera computacional. Existem outras questões a serem debatidas: Em vinte anos, quantos candidatos estarão habilitados a entrar em um programa de mestrado? A meu ver a massa pensante neste país vem se deteriorando. Quantos de nossos alunos se interessam por política, economia e educação? Espero ser contrariado por todos…

O que fazer então?

Não tenho competência para resolver todos os problemas, porém vejo algumas alternativas que podem ser implementadas, neste texto cito algumas:

Inverter, gradualmente, a ordem dos valores em todos os níveis educacionais:

Um professor adjunto de uma universidade federal possui um salário mensal que gira em torno R$ 6.500,00. Já uma professora do ensino fundamental, aquela que tem como missão de alfabetizar a minha filha o seu filho, em meu pequeno município, recebe mensalmente cerca de R$ 1000,00. Em hipótese alguma defendo a redução de salário de alguém. Defendo, sim, um índice maior de reajuste para as professoras. Imagine viver, HOJE, em uma realidade que a professora do ensino fundamental tenha um salário R$ 5.000,00 e o professor adjunto tenha vencimentos mensais de R$ 10.000,00. Teríamos um maior comprometimento dos professores? Teríamos mais pessoas interessadas em ser professor? Em hipótese alguma quero ser utópico, sei que isto envolve diversos fatores político-econômicos. A mudança não vai ocorrer de hoje para manhã.

Invertendo ainda: Qualidade em vez de quantidade:

Neste país a moda é o número, a estatística. O Brasil possui somente cerca de x% de analfabeto. Estamos formando y% profissionais por ano. Questiono: Qual a qualidade dos profissionais que estamos formando? Novamente, estes profissionais serão responsáveis por ensinar nossos filhos e nossos netos, cuidar de nossa saúde? Estudos indicam que cerca de 60% dos médicos formandos não possuem condições de exercer a profissão. Neste mês minha filha de 2 anos passou por 3 médicos da rede particular e os três emitiram o diagnóstico errado. O profissional que acertou com milha filha terminou o seu curso em dezembro 1975, fiz questão de prestar a atenção em seu diploma exposto em seu consultório. Experimente a rede pública de saúde e me fale… Que tal discutirmos o contexto mercantilista do ensino em todos os níveis? Tem muita escola particular de ensino médio que o lema é: papai pagou o filhinho passou, e lá estamos nós, pais, aplaudindo o vidiotinha em formação. No ensino superior, todos já sabem o que ocorre… Proponho um afunilamento, só é aprovado quem sabe. O aluno deve fazer prova e trabalhar com afinco para mostrar conhecimento adquirido. Na maioria dos níveis educacionais a política foca a quantidade. É necessário focar qualidade. Será que os mercantilistas querem isto?

Aumentar e Equalizar os investimentos educacionais por todo o país

No Brasil, os investimentos em educação e cultura são pequenos, varia de 3.9% a 4.5% do PIB. Lembrando que no quesito arrecadação de impostos somos os melhores do mundo. O aumento e a equalização de recursos devem ser revistos pelo poder público. Costumo dizer que algumas áreas do país deveriam ser tratadas como política de estado e não como política partidária, educação é uma delas. Quando isto ocorrer podemos sair do buraco que estamos ajudando a cavar.

Enfim, a geração dos vidiotas já chegou, espero que nosso país não entre em circulo vicioso. Fica  a minha opinião sobre o assunto. Como disse no início, espero ser contrariado por todos…

José Augusto

3 Responses to “Vai faltar muito mais que doutor”

  1. Moacir Ponti Says:

    Tudo bem? Gostei do texto, mas aconselharia você tirar o genero da professorA de fundamental e do professor adjuntO, pois o gênero não define a função… valeu!

  2. Marcelo Rosa Says:

    Bom texto, realmente são vários fatores que devem influenciar a mudança da Educação nesse país, no entanto, os óbvios estão saltando todos os dias em todos os lugares, e você citou um dos principais. (Investimento X Impostos)…

  3. País que não tem o conhecimento como investimento até estratégico não precisa de doutor, técnico. Pra vidiotas basta Gugu e Faustão

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