A formiga na colméia

As formigas formam o grupo mais popular dentre os insetos, possuem um nível avançado de sociedade dentro do contexto irracional, ou seja, a eusocialidade. Cientificamente, o adjetivo eusocial caracteriza os animais que apresentam sociedades mais complexas, atributos como sobreposições de geração em um mesmo ninho, o cuidado cooperativo com a prole e uma divisão de tarefas (formigas reprodutoras, formigas soldados e formigas operárias) delimitam o caráter eusocial do formigueiro.   As formigas, quando unidas, constroem autenticas obras de engenharia, todas elas subterrâneas com um complexo sistema de túneis e câmaras especiais. Dentre estas câmaras é possível destacar a de armazenamento de alimentos, os aposentos da rainha e o berçário onde são tratadas as larvas. A organização do trabalho das formigas é baseada na divisão de tarefas, as atribuições das mesmas levam em conta o tamanho ou a idade de uma determinada formiga.

As abelhas também possuem o mesmo nível eusocial presenciado nas formigas. Este tipo de inseto vive em colônia, caracteriza pela laboriosidade e disciplina. Só para se ter uma idéia, uma colônia possui cerca de 80.000 abelhas, uma rainha e centenas de zangões. A rainha possui dimensão duas vezes maior do que as operárias e sua função biológica é a postura de ovos (a única fêmea com capacidade de reprodução).

O que aconteceria se uma formiga fosse gerenciar o projeto de construção da colméia?

Apesar da eusocialidade presente em ambas as organizações, a formiga:

1 – não possui conhecimentos sobre o potencial das abelhas;

2 – não conhece o ferramental necessário para construção da colméia e;

3 – nunca executou qualquer tipo de tarefa pertinente as abelhas, pois não possui estrutura física para isto.

Conclusão

A colméia não sairia de planta. Não teríamos um produto formidável e doce como o mel.

Em grande parte dos projetos desenvolvidos neste país existem muitas formigas gerenciando a construção de colméias. O resultado é óbvio: Erro na definição de escopo. Erro na seleção de pessoas. Atraso de cronograma. Custos  extrapolados. Falta de tato para gerenciar as expectativas dos clientes, externos e internos.

Neste post darei uma maior importância ao último item. Para isto utilizarei a idéia de gestão de projetos em um contexto escolar.

Em uma escola os clientes externos são os alunos. Os clientes internos são os professores e os funcionários.

Quais são as expectativas de um aluno?

a) Ter acesso ao ensino de qualidade.

b) Conseguir conhecimento para passar nos vestibulares mais concorridos.

Para fornecer estes ativos à escola deve possuir um corpo docente altamente capacitado, infra-estrutura: Biblioteca e laboratórios.

Quais são as expectativas de um professor?

a) Os professores e funcionários devem estar comprometidos com a escola e esse comprometimento só é possível se as ferramentas (infra) forem boas.

b) Comprometimento é uma via de mão dupla, o professor deve enxergar oportunidades de crescimento e a escola deve utilizar esse professor como fator crítico de sucesso.

Um médico, um contador ou um marceneiro não possui capacidade para gerenciar uma escola. A escola deve ser gerenciada por professores que possuem o feeling de gestão. Se isto não ocorrer, teremos formiga na colméia, e formiga na colméia não produz o doce mel obtido com o sucesso de um projeto.

Abraços

José Augusto Fabri

fabri@femanet.com.br

5 Responses to “A formiga na colméia”

  1. Oi Guto,
    Se as atividades desempenhadas pelo gestor forem operacionais, então concordo com suas afirmações. Mas, se o nível das atribuições do gestor for estratégico, daí não são muito importantes os conhecimentos técnicos do administrador, pois o que importa é decidir como a organização pode sobreviver ou até crescer em ambiente adverso. Veja “Habilidades segundo Robert Katz” em Maximiano, A. C. A. Teoria geral da Administração. 2ed. São Paulo: Atlas, 2000. p.77.

  2. Maria Alice Siqueira Mendes e Silva Says:

    Apesar de os estudos etológicos serem muito utilizados para a compreensão do mundo humano, penso que devemos ter cuidado para não fazermos uma transposição mecânica de uma realidade para a outra, no caso, do funcionamento do mundo das formigas para a dinâmica da vida humana. Isso porque, ao contrário dos animais que já nascem geneticamente determinados, o homem se adapta e, mais do que isso, aprende com as experiências vividas, o que lhe possibilita mudar o curso das ações, caso entenda ser necessário ou interessante.
    Sendo assim, penso que um médico, um contador ou um marceneiro pode sim, e bem, gerenciar uma escola, desde que, além de uma boa formação em gestão escolar, esteja atento às demandas afetivas constantes nas relações interpessoais existentes na organização do trabalho. É claro que concordo que mesmo esses sendo bons, a chance de sucesso de um profissional da área da Educação seria ainda maior, visto que conheceria os entrelaçamentos dos diversos elementos, e suas respectivas vicissitudes, que compõem o universo escolar. Entretanto, considero que é importante não ficarmos com um clientelismo simplista que protege a categoria profissional, mas não avança nada em termos de um diálogo transdisciplinar que, pela própria especificidade deste último, permitiria uma diversidade de leituras sobre uma mesma questão, o que seria interessante para qualquer assunto.
    Deste modo, se é verdade que, por um lado, não é a área de formação do profissional que subestimaria, desqualificaria ou impediria uma boa gestão escolar, por outro, sabemos que poderia ser um diferencial se esse gestor não fosse, apenas, um educador, mas um educador bem formado. Assim, a tônica desta questão passaria a ser a qualidade da formação e competência técnica do gestor escolar, e não a área do saber na qual ele é formado. Até porque, se fosse como sugerido, teríamos grandes problemas, pois o número de educadores é muito menor, proporcionalmente, que o número dos demais profissionais que são formados nas diferentes áreas. Ou seja, como faríamos para resolver o problema da gestão e da formação de médicos e contadores, por exemplo? O que quero dizer com isso é que ‘não tem jeito’: são somente os médicos que poderão formar outros médicos e, desta maneira, mais um monte de profissionais. Então, e só então, a questão, a meu ver, poderia ser equacionada assim: o quanto de ‘educador’ existe nos “professores e/ou gestores” – médicos, contadores, marceneiros e, também, educadores – que têm por aí nas faculdades do país?
    Neste sentido, penso que o texto do Guto nos chama a atenção para duas questões sérias: primeira, se os gestores escolares estão sendo bem escolhidos ou, em outras palavras, se os critérios utilizados para elegê-los têm sido interessantes para os diversos atores da Escola, e, segunda, no por que de a proposta do MEC de as faculdades implantarem um Instituto Superior de Educação, que contemplaria todos os cursos destas faculdades e não somente os da área da Educação, e que seria o responsável pela formação de novos educadores das diversas áreas do conhecimento, fora, apriorísticamente, rechaçado sem ao menos lhe ser dada chance de verificar quais seriam seus resultados, com exceção de algumas faculdades que o fizeram e têm obtido sucesso – como a USP de São Paulo por exemplo –.
    Faço, a partir destas, outras perguntas: senhores gestores educacionais, por que não um Instituto Superior de Educação em suas faculdades? Não seria, além de um centro formador de bons educadores, um meio interessante de formação de bons gestores?

  3. Pablo Lima Says:

    Ótimo texto! Mas venho me manifestar por um pedido: que este blog não utilize letras claras sobre um fundo preto. Fica mais cansativa e difícil a leitura.

    Abraço, Pablo

  4. Vanderley de Vasconcelos Says:

    Olá José Augusto Fabri,

    Muito oportuno o seu texto. Entendo que ele vai fundo na questão de gestão em nosso País.

    Gostaria da sua gentileza de me permitir utilizá-lo em uma palestra de abertura do IV EPAEP (Encontro Paraense de Engenharia de Produção) que irei proferir no próximo dia 18/08/2010.

    Com os devidos créditos, é claro!

    Antecipadamente agradeço,

    Vanderley de Vasconcelos
    Pesquisador do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear CDTN/CNEN
    e Professor da Escola de Engenharia da Univesidade de Itauna, MG

    • José Augusto Fabri Says:

      Professor Vanderley, fique a vontade para utilizar o texto como quiser.

      Abraços

      José Augusto.

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