A regulamentação da profissão de analista de sistema

A Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania aprovou no dia 19 de agosto um parecer (que não significa o final do processo) que “… dispõe sobre a regulamentação da profissão de Analista de Sistema e suas correlatas …”

O Artigo 4º, parágrafo único diz: “É privativa do Analista de Sistemas a responsabilidade técnica por projetos e sistemas para processamento de dados, informática e automação, assim como a emissão de laudos, relatórios ou pareceres técnicos.” 

O referido parecer gerou uma grande discussão junto à comunidade acadêmica. Alguns são a favor da “cartolagem” outros contra. Neste post vou colocar minhas opiniões e apresentar alguns links que fomentam a discussão sobre o assunto.

Este blog é contra qualquer tipo de regulamentação na área da engenharia de software

Segue alguns argumentos que sustentam minha posição:

1 – A finalidade de um conselho (ou cartório) é garantir que os consumidores tenham acesso a produtos e serviços de qualidade. Infelizmente, nesse país a finalidade não está alinhada a praticidade, ou seja, a “cartolagem” preocupa-se exclusivamente em defender a sua classe, olha apenas para o seu próprio umbigo. São poucos conselhos que, realmente, olham para o consumidor.

2 – Por trás da aprovação do parecer existem interesses eleitoreiros econômicos. A criação de um conselho federal de informática arrecadaria cerca de 150 milhões de reais por ano. Pode ter certeza que alguns senadores e deputados irão abocanhar uma boa parte dessa grana. Quem vai pagar a conta? Todos que quiserem trabalhar.

3 – A qualidade de um software passa e muito pela qualidade do processo. Um processo é dividido em atividades: levantamento de requisitos, análise de sistemas, projeto de software, programação, teste e implantação são exemplos de algumas.  Percebam que análise de sistemas é apenas uma das atividades do processo. Aspectos relacionados a segurança e usabilidade são índice qualitativos que contextualizam o produto. Neste caso para garantir qualidade devemos então regulamentar a profissão de gerente de projetos, arquiteto, programador, testador?

4 – Existe grande confusão entre formação, competência e certificação. O processo de formação profissional é contínuo, ele agrega todas às experiências profissionais realizadas. A universidade tem como objetivo apresentar e buscar a internalização do conhecimento, nela construímos um alicerce sólido para desenvolver as diversas competências. Lembre-se que é perfeitamente possível internalizar conhecimento fora do contexto universitário. A competência, sob a ótica da engenharia de software, aflora no momento que nos relacionamos com atividades profissionais que permeiam o cotidiano da área. Saliento que não é impossível ser competente sem possuir uma base sólida de conhecimentos. A certificação apenas atesta que o conhecimento foi internalizado por alguém e isso não é o mais importante. Nenhum certificado demonstrará que alguém é capaz de estabelecer as relações necessárias para o desenvolvimento de competências.

5 – No parecer, se as áreas correlatas não contemplar os tecnólogos, cientistas da computação e os bacharéis em sistemas da informação teremos todos que voltar aos bancos universitários para aprendermos análise de sistemas. É piada…

6 – Acho que o senador Jarbas Vasconcelos, autor da proposta, não possui a mínima noção do contexto sistêmico no qual está inserido. O MEC, em sua adequação de Catálogo dos Cursos de Graduação, informa que o curso de Bacharelado em Análise de Sistemas não deverá mais existir no Brasil. Teremos somente os Cursos Superiores de Tecnologia de Análise e Desenvolvimento de Sistemas. Essa regulamentação, também, vai contra as deliberações do Supremo, que derrubou a obrigatoriedade do diploma para os jornalistas.

7 – Reserva de mercado. As empresas que não possuem analistas de sistemas diplomados (ou certificados) terão que contratar um para assinar o projeto atestando a qualidade (em tom de ironia: todos sabemos que o analista de sistema é o ator responsável pela qualidade de um software). Quem irá ganhar com isso? Reserva de mercado, em um mundo globalizado é péssimo, lembre-se que eu posso trabalhar para clientes na esfera internacional em qualquer lugar. As grandes multinacionais não querem saber se você é formando, elas querem que você resolva problemas.

8 – Lembre-se que o conceito sistêmico transcende a atividade de informática em si. O analista é caracterizado como um profissional com capacidade de materializar, em uma linguagem específica, as relações processuais de um sistema. O que é mais fácil: um gerente de um grande banco aprender a linguagem específica e participar ativamente de um projeto, ou um analista aprender todas as prerrogativas que compõem um sistema bancário para, posteriormente, desenvolver a análise?

Enfim, a discussão está aberta. Opinem, debatam…

Você pode encontrar mais informações sobre o assunto nos links abaixo:

“Desregulamentar profissões. Todas!”, por Alexandre Barros em http://migre.me/5otL

Opinião sobre a regulamentação com exclusividade, por Geraldo Xexeo em http://xexeo.wordpress.com/2009/08/20/opiniao-sobre-a-regulamentacao-com-exclusividade/

O Erro na fé sobre o diploma, por Geraldo Xexeo em http://xexeo.wordpress.com/2009/08/21/o-erro-da-fe-no-diploma/

Profissão meio e profissão fim, por Silvio Meira em http://smeira.blog.terra.com.br/2009/08/17/profisses-regulamentao-flanelinha-capoeirista/

Abraços

José Augusto Fabri

fabri@femanet.com.br

4 Responses to “A regulamentação da profissão de analista de sistema”

  1. Tiago Roseta Says:

    Acho ridiculo essa regularização, da maneira que esta sendo proposta, como o Guto disse, os tecnologos e bachareis formados na Fema teriamos que sentar e estudar Analise de Sistemas novamente. Extremamente ridicula a ideia, que só servirá de mais uma fonte de renda para os politicos corruptos que temos o Brasil.

  2. Boas observações.

    O lance de regulamentar a esfera gestora foi “genial”!

    Sobre o que eu penso:

    Ouço sobre a tal “regulamentação” desde que comecei na área, 12 anos atrás. Hoje, pós-graduando em Engenharia de Software pela FSA, ainda percebo mais do mesmo. Minha opinião acanhada também vai contra a iniciativa meramente política.

    Entretanto, não podemos esquecer que muitos de nossos colegas, alguns sendo peça-chave nas organizações, ainda acreditam que a regulamentação da profissão de “Analista de Sistemas” traz algum ganho, nos rotulando como profissionais… nos dá o ar glorioso de ter um ofício. Coisa da época em que saber datilografar era um diferencial. Ledo engano, infelizmente, profundamente cultural.

    Mesmo que a regulamentação fosse boa, ainda nos faltaria maturidade.

    Tá dito.

    Boa sorte com o blog.

  3. Sou terminatemente a favor da regulamentação da profissão de ADS. Vão estudar cambada!!!

  4. Sou totalmente a favor de da regulamentação Por isso que deste o açougueiro, até o motorista de ônibus quer dar palpite onde ele acha que sabe de alguma coisa por conseguir entrar e ficar o dia inteiro no facebook.

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